Este artigo nasce da necessidade de prestar esclarecimentos à população interessada e de traçar novos caminhos de diálogo entre as categorias profissionais envolvidas nos processos de consolidação da Acupuntura – Medicina Tradicional Chinesa (MTC) – no Brasil.

Antes de entrarmos no mérito da discussão, creio oportuno dar uma sutil pincelada sobre alguns fatos importantes nesse campo controverso:

  1. A MTC é uma Ciência Milenar ampla e profundamente documentada em extensa literatura e segue seu caminho em adaptação dinâmica no tempo-espaço (cruzando os milênios e adentrando no ocidente), pautada numa forma de pensamento (Taoísmo) que contempla a transformação contínua de todas as coisas (portanto, não é uma forma de tradicionalismo estanque, e sim uma ciência viva e em constante mutação);
  1. “A Medicina Tradicional Chinesa caracteriza-se por um Sistema Médico Integral, originado há milhares de anos na China.” (Trecho retirado da Portaria 971);
  1. A MTC possui um corpo teórico-prático coeso de entendimento sobre os mecanismos da vida (fisiologia na MTC), de investigação sobre as causas das desarmonias e sobre a consolidação dos estados de desequilíbrio (fisiopatologia na MTC), de tratamentos eficazes desses estados desarmônicos e de prevenção dinâmica de problemas futuros (Acupuntura Tradicional, Tuiná, Fitoterapia Chinesa, Qi Gong, Lian Gong, Tai Ji Quan, Alimentação Terapêutica);
  1. A acupuntura era considerada, até poucas décadas atrás, uma forma de curandeirismo pelo meio científico convencional ocidental e agora passou a ser uma prática científica oficial e irrevogável, sem que nada de novo tenha sido incorporado aos seus fundamentos e diretrizes;
  1. A Portaria 971 regulamenta a entrada de Práticas Integrativas no SUS, incluídas a Acupuntura e a Fitoterapia, exercidas pelos profissionais da Área da Saúde;
  1. Existem no Brasil, desde 1980, cursos técnicos em Acupuntura (alguns com mais de 2.500 horas totalmente presenciais), com formato e densidade acadêmica e preocupados em disseminar a Ciência milenar da Acupuntura, formando profissionais completos, com conhecimento das biociências ocidentais e da grandiosa Medicina Chinesa;
  1. A OMS criou diretrizes para a capacitação plena de acupunturistas autônomos e recomenda a inserção desses profissionais nos sistemas de saúde de seus países membros.
  1. O Grupo de Pesquisa Racionalidades Médicas, sob a coordenação da Doutora Madel Therezinha Luz, definiu a Acupuntura/Medicina Chinesa como uma racionalidade médica autônoma e independente, com um corpo teórico e uma prática terapêutica próprios, e claramente distinta da racionalidade médica contemporânea ocidental.

Acabado esse necessário introito, lanço aqui uma pergunta chave: queremos especialistas de profissões da área de saúde, que contam com um corpo teórico distante da MTC, armados somente com uma técnica mal acabada a favor da mesma visão já consolidada nos cursos habituais ou, por outro lado, queremos profissionais imersos numa visão integral do ser humano, com uma formação exaustiva e investigativa sobre os preceitos mais caros dessa ciência que atravessa milênios? Essa não é uma pergunta fácil, mas merece ser estudada com carinho por aqueles que desejam conhecer a Acupuntura em sua plenitude, seja através de uma Pós-graduação ou de uma formação Técnica. Os interessados na acupuntura devem saber que ambas as formações são apenas conjunturais (sobrevivem devido a um desconhecimento geral sobre a grandiosidade dessa Ciência, ou devido a interesses parciais) e que não retratam a necessidade ideal de apreensão plena desse conhecimento. Sendo assim, termino com um chamado aos profissionais envolvidos no processo educacional, sejam educadores ou pesquisadores, sejam estudantes: primemos por uma formação sólida e consistente, sem prescindir dos fundamentos desse Saber transdisciplinar e sem esquecer os mais nobres preceitos da Ciência, como a busca livre pelo conhecimento e a coragem para enfrentar o desconhecido, sem as amarras dos dogmas científicos e suas certezas engessadas.

Prof. Pedro Ivo Marini Tahan