“O grande desafio dos artistas é aniquilar o equilíbrio estático em suas pinturas através de oposições (contrastes) contínuas dentre as maneiras de expressão. É absolutamente natural os seres humanos buscarem um equilíbrio estático. Esse equilíbrio, evidentemente, é necessário para a existência no tempo. Mas a vitalidade na sucessão contínua do tempo sempre destrói esse equilíbrio”.1

Piet Mondrian2 e o Tao

Piet Mondrian via na arte uma maneira de expressar sua concepção sobre a vida. Vida em constante movimento, onde dualidades/oposições interagem num equilíbrio dinâmico. Em suas obras, Mondrian fez uso das linhas horizontal e vertical como expressão de opostos. Segmentos coloridos e não-coloridos de suas telas transmitem a mesma idéia de oposição (vermelho-quente / azul-frio). A linha vertical representaria o masculino, o mental/espiritual; a linha horizontal (alinhada com a terra), o feminino e o material. Luz e não-luz é outra das dicotomias presentes. As dualidades não são estanques. As linhas vertical e horizontal formam ângulos de noventa graus, sugerindo que os opostos se encontram. As linhas e seus encontros (interseções) conduzem o observador à seguinte pergunta: o que é “fundo”, o que é “figura”? Tanto as linhas quanto as partes coloridas e não-coloridas poderiam ser, simultaneamente, “figura” e “fundo”, situadas em um mesmo plano. A imagem pode ser vista, então, como uma totalidade. Ao olhar para as obras de Mondrian, repare: você enxerga as grades ou os compartimentos coloridos e não-coloridos?

É perceptível a intenção do artista de dispor os elementos de sua obra como um “continuum” de cores, luminosidade, traçados e interseções, de dispô-los como possibilidades de gradações. Ao mesmo tempo, também ao fazer uso de intervalos desiguais entre as linhas cria um visual de ritmo (como em Broadway Boogie-Woogie que sofreu também a influência do jazz americano, ritmo livre, improvisado, sem repetições). Mondrian cumpre assim a tarefa de destruição de uma forma particular e realiza a construção de um ritmo de relações entre oposições, gradações, interseções e intervalos, que transmitem a sensação de movimento, de forças em equilíbrio não-estático, ou seja, em equilíbrio dinâmico.

Mondrian, Dao De Jing / Pensamento Chinês e a Medicina Chinesa

A concepção de equilíbrio dinâmico de Mondrian, com o“precário” equilíbrio entre forças opostas, variáveis e mutantes, sua concepção de vida e arte parecem incrivelmente alinhadas com as idéias de Dao De Jing (base da Medicina Chinesa). Na observação e análise do mundo, os chineses já haviam compreendido os princípios Yin e Yang como polaridades do universo – opostos, mas também complementares, interdependentes, que se consomem mutuamente e podem transformar-se em seu oposto. Yin e Yang interagem consoante o ritmo cíclico da Natureza, evidenciando diversos momentos/movimentos de um mesmo processo, de um mesmo todo. São movimentos incessantes, num contínuo fluxo, num “continuum” de transformações. Transformação e mudança são características essenciais da natureza e dos processos vivos. Entre Yin e Yang encontram-se toda a diversidade possível, as infinitas possibilidades. As dualidades são aspectos de uma mesma coisa: o uno dividido em dois, depois em muitas e infinitas partes.

Dessa forma, para a Medicina Chinesa, a saúde e a doença podem ser aspectos de um mesmo processo. Processo num equilíbrio dinâmico, com flutuações constantes, possibilidades diversas, e que portanto necessita constantemente de ajustes.

Como seres vivos parte da natureza e do universo buscamos a harmonia, o equilíbrio, que, conforme já mencionado, não é estático, mas dinâmico. Estamos em constante movimento, e constantemente em mudanças. Mas o importante é o momento presente. O pensamento não deve estar no passado nem no futuro. Conhecemos o caminho a cada instante, é espontâneo: não pode ser visto, não pode ser conhecido de antemão, o que se vê são projeções que atendem a desejos e que não nos permitem estar aqui e agora. Os desejos não respeitam a natureza, tendem a deixar o coração inquieto e reduzem a capacidade de auto-regulação.

A Medicina Chinesa busca ativar os mecanismos auto-regulatórios naturais do próprio corpo humano, reduzindo a necessidade de ajustes muito grandes e excessivamente drásticos, mesmo com os movimentos e as mudanças. O equilíbrio dinâmico aprecia a ação espontânea segundo o Dao.

Kelly Chung

Referências

  • Argan, Giulio Carlo, Arte Moderna: Do Iluminismo aos Movimentos Contemporâneos, Companhia das Letras, 1988.
  • Capra, Fritjof, O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, 1982.
  • D’Agostini, Luiz Renato e Cunha, Ana Paula Pereira, Ambiente, Editora Garamond, Rio de Janeiro, 2007.
  • Kinsella, John, “Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, in: Salt Magazine.
  • Kruger, Runette, Art in the Fourth Dimension: Giving Form to Form – The Abstract Paintings of Piet Mondrian.
  • Lao Tsé, O Livro do Caminho Perfeito: Tao Té Ching, tradução e adaptação de Murillo Nunes de Azevedo, Editora Pensamento, São Paulo.
  • Lao Tse, Tao Te Ching: O Livro do Caminho e da Virtude, tradução de Wu Juh Cherng.
  • Tate Collection, Composition B (No.II) with Red, 1935.
  • The Free Library, Piet Mondrian: tableau with large red plane, blue, black, light green and greyish blue, 1921.

  1. Livre tradução de citação de Piet Mondrian, no artigo “Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, John Kinsella, Salt Magazine.
  2. Piet Mondrian (1872-1944)- Pintor Holandês, no início de sua vida, recebeu grande influência do Calvinismo, com uma educação muito rígida (pai era pastor). Em 1914 associa-se ao movimento Neoplástico e por volta de 1920, chega ao estágio de pura abstração.