“Uma doutrina formulada é eventualmente algo inerte. A conclusão alcançada por um processo de pensamento não raro é o fim do processo de pensamento”

Arthur Lovejoy

Esse texto nasce de uma inquietação: como conciliar a aparente contradição entre, de um lado, a intenção presente no terapeuta/técnico/especialista/praticante de modalidades naturais de medicina – tal como acupuntura, Body Talk, e outras – com uma recusa da visão dicotômica que classifica a doença, dor, incomodo ou sintoma do paciente como um “mal” a ser extirpado em prol do restabelecimento da saúde bem como do estado desejado de bem estar?1

Dito de outro modo: creio que a maior parte dos terapeutas naturais operam, de forma consciente ou não, com uma agenda – uma intenção, fim, meta, objetivo fixo – de “curar” ou “melhorar” o paciente, o que aparentemente exige a premissa – inconsciente ou não – de que há um “mal” a ser eliminado em prol do “bem maior”. Ora, tal concepção não seria contrária à tão proclamada crença na complementaridade dos opostos, à  visão do fluir natural e necessário das coisas? Uma vez aceite tanto a “eficácia” de certa terapia quanto a “necessidade” de se “resolver” o mais rápido possível determinado padrão de desarmonia identificado em um paciente, qual o espaço real que se dá à opinião do valor, intrínseco ou relativo, da “doença”/desarmonia?

Não busco aqui apresentar uma incoerência lógica ou formal, mas problematizar algumas das premissas que norteiam a prática clínica de muitos terapeutas naturais – premissas essas que influenciam, p.ex., na construção de expectativas em relação ao tratamento ou mesmo na interação energética entre paciente e terapeuta, o que termina por ter efeitos visíveis e de vital importância no “resultado” (desenrolar) da técnica utilizada.

Meu ponto não é tanto propor uma “conciliação” definitiva ou uma fácil resolução sintética e irreversível entre as distintas perspectivas, mas avaliar as possíveis combinações entre as perspectivas acima esboçadas, particularmente no momento em que o terapeuta se encontra frente a frente com o paciente que o procura sob a promessa de cura, melhora, restabelecimento…

Presença

Um preceito comum aos terapeutas, ao abordarem seus pacientes, é o de se manterem presentes durante o tratamento, isto é, o de se centrarem no “agora”, afastando da mente – e do coração – toda e qualquer consideração acerca do passado e do futuro. Isso implica em manter a atenção nas medidas práticas a serem tomadas para que se realize um bom trabalho, visto que nosso comportamento cotidiano de manter a atenção simultaneamente  no passado, presente e futuro implica em um foco partido, cindido, fragmentado, o que implica, naturalmente, na diminuição de nossa eficácia. Qualquer pessoa que já tenha “se perdido”, por assim dizer, em uma atividade, sabe do que esta presença se trata: com toda a atenção voltada para o momento presente, as preocupações saem de vista e a experiência do evento torna-se, no mínimo, “estranha”, especial, curiosa. Mesmo um esforço intenso pode ser executado sem grande stress mental. A vivência do tempo, segundo alguns, também se altera, parecendo passar mais devagar – comumente jogadores de esportes como tênis ou baseball relatam que podem ver a bola “voando” de forma mais lenta quando estão em estado de concentração total. A lista poderia continuar, mas o essencial já foi dito: com a ausência de um foco partido, parece que se faz qualquer coisa melhor e com mais prazer.

Creio que todos já experimentamos em algum momento essa experiência, alguns mais, outros menos, alguns em apenas uma atividade, outros em tarefas distintas. Alguns indivíduos, que se habituaram a vivenciar a “presença total” apenas em uma esfera da vida tal como a profissional, eventualmente tornam-se viciados nesta, visto poderem alcançar certa sensação de paz, em meio a toda a balbúrdia e confusão aparente, ao passo que, em circunstâncias aparentemente menos conturbadas de suas vidas, dada a pluralidade de preocupações e considerações simultâneas que perpassam suas mentes, a vivência se torna um tanto desagradável.

Naturalmente, esta atitude “garante”, por assim dizer, certa viabilidade e qualidade ao trabalho desempenhado, no caso, o do terapeuta. Ao se encontrar “na zona do tratamento”, com o foco centrado, a tomada de decisões se torna mais clara e o espaço para se ouvir toda sorte de intuições é significativamente ampliado. Mas, ainda há um “que” de utilitarismo, de intenção, contido nesse comportamento: deve-se ter presença para alcançar melhor resultado! Seria possível não ter alguma “meta” a ser cumprida em uma atividade terapêutica?

Talvez a questão não seja a de ter ou não uma meta, mas a de se agarrar a estas “versus” vivenciá-las. Quero dizer, sempre se pode dizer que por trás da atitude mais desinteressada possível há um interesse particular – aliás, tal é o método clássico dos moralistas de todos os tempos, i.e., encontrar interesses mesquinhos por detrás de atitudes “inocentes”. Sim, há uma impossibilidade de nos desprendermos de nossas emoções, expectativas e desejos parciais – i.e., polarizados – seja no ambiente terapêutico, seja alhures, mas pode-se manter uma relação menos apegada, menos identificada, com as expectativas, intenções, desejos e agendas da vida cotidiana. (circulação de pensamentos, de energia..)

Motivação e entusiasmo; cotidiano e contemplação

Atuar com um objetivo não é, assim, exatamente o “problema”, mas sim confundir determinado objetivo com a razão única de ser da ação – afinal, não controlamos o resultado de nossas atitudes. Agirunicamente em torno de um objetivo fixo seria uma espécie de estagnação de energia; a ação única e exclusivamente motivada para um fim se equivale à ação orientada por um desejo, uma falta, um vazio, um lapso, no caso, o da saúde do paciente (seja lá o que isso for). E como não crer que a obsessão por bons resultados, enquanto único motivo da ação, também não se fundamenta em uma constante necessidade de auto-afirmação?

É certo que, em termos pragmáticos, um terapeuta faz uso de métodos para “curar” o paciente; há ai uma relação de causa e efeito. O terapeuta precisa de sobreviver, ganhar dinheiro, e o faz através da obtenção de resultados – i.e., ele “causa”, produz certo estado de coisas e assim é recompensado pelo serviço. Nunca é demais repetir o que foi dito anteriormente: possivelmente toda ação humana está impregnada de motivos similares aos aqui mencionados, que por sua vez estão entremeados de emoções e considerações as mais diversas.

Em um nível pragmático, há portanto a eleição, por parte do terapeuta, de “coisas a fazer” e de “resultados a se obter”, isto é, há a eleição de um programa humanista – um fim, um ideal, uma meta, um telos, tal como a “saúde”, o “esclarecimento/iluminação” do paciente, etc. Da mesma forma, em um nível cotidiano, as leis de causa e efeito regem o comportamento – “se colocarmos uma agulha aqui e outra ali, possivelmente o paciente irá melhorar” – nós temos controle relativo das situações e do desenrolar das ações. Longe de ser errado, talvez seja impossível não vivenciar tais crenças, mas há uma diferença substancial entre vivenciá-las, deixá-las fluir por nós, e por outro lado, nos identificarmos, nos apegarmos a elas.

Embora sejamos entremeados de crenças, emoções, pensamentos, não somos nenhum destes em específico. Tampouco temos domínio total de seu fluxo e refluxo, embora comumente desejamos nos petrificar sobremaneira em torno de alguns conceitos-chave ou emoções-chave – sou deprimido, sou agradável, sou inteligente, sou um bom terapeuta, etc. Fora a ilusão do controle aí contida, onde se encontam as idéias outrora propagadas, de circulação de energias, de equilíbrio dinâmico, de movimentação e circulação das forças componentes e complementares da dualidade? Como ofertar uma “cura”, que também pode ser entendida como restabelecimento de harmonia dinâmica, se estamos presos a noções identitárias muito fixas? A desejos uniformes? A metas pré-estabelecidas de saúde e doença? A emoções, pensamentos, falsamente identificados como minhas emoções, meus pensamentos? Há a necessidade de nos desassociarmos, vez ou outra, do nível pragmático acima mencionado; melhor, de associarmos a ele um outro nível, mais abrangente e “contemplativo”, menos “utilitarista”. Não para “superar criticamente” o nível cotidiano da realidade, mas para lembrarmo-nos do que não nos encerramos na realidade pragmática; tampouco o mundo se encerra no “certo e errado” que tanto guia a atividade profissional.

Há a necessidade de um esforço diário, por assim dizer, frente ao tecnicismo, que é afinal importante, mas facilmente nos leva ao comodismo – porque garante nossa sobrevivência diária. Para isso, não há fórmula; tal é o motivo de não propor aqui uma conciliação definitiva, mas sim de buscar apresentar um incômodo gerador de ruminações e exercícios mentais. Podemos apenas, neste momento, levantar alguns possíveis tópicos de reflexão. Gostaria aqui de retomar a questão inicial: como entrecruzar a concepção “tecnicista” do método terapêutico enquanto gerador de uma cura com uma percepção de mutabilidade constante, que exclui a existência de um patamar fixo de oscilação, de mutação, de equilíbrio? Em outros termos, se não há um padrão fixo de oscilação ou de mutação, não há um fundamento sólido para se discernir a saúde e a doença, logo deve-se sempre repensar todo o aparato de julgamento intelectual, das bases ao cume. Deve-se manter o pensamento em movimento.

Thiago Moutinho Atala Neto

Bibliografia

  • BUENO, André. A estrutura do pensar chinês.
  • _____. Laozi e zhuangzi. Mestres do caminho.
  • MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo.
  • TSÉ, Lao. Tao te ching. O livro do caminho e da virtude. Tradução: Wu Jyn Cherng. Carta da transdisciplinaridade.
  • I Ching. O livro das mutações. Prefácio de Carl Gustav Jung. Tradução: Richard Wilhelm.

 


  1. Esse trabalho é simultaneamente fruto de um conjunto de reflexões pessoais de longo prazo em  torno das motivações da ação humana; fruto de minha experiência terapêutica com uma técnica natural (Body Talk); e um conjunto de especulações, exercícios e hipóteses acerca das motivações e da postura dos indivíduos atuantes na área de saúde. Vale mencionar que dada a natureza do trabalho, termino por ser mais assertivo do que desejaria. A construção dos argumentos é apenas provisória: espero que enseje uma posterior desconstrução e reconstrução, favorecendo os únicos objetivos pertinentes de um texto de caráter reflexivo, isto é, a problematização e o ensejo de se pensar mais e melhor. Uma última nota: o tema sob enfoque se desenvolve frente à questão central das possibilidades e desafios de se trazer ao cotidiano concepções “taoístas”.  Todavia, a opção do recorte e os limites de espaço excluem a quase totalidade das considerações que, no entanto, são essenciais para uma boa compreensão do tema: muito se deu por subentendido, e mais questões foram levantadas do que respondidas. Fica a cargo do leitor acrescentar à sua leitura comentários, glosas, notas, citações refutações e críticas.